Refúgios e Fugas em mundos multiespécies>
Eixo 2: Encantamentos, Transformações e Entrelaçamentos Multiespécie
Olívia Gomes da Cunha
Fugas, porcos e espíritos: derivas fugidias entre os Cottica Ndyuka
As relações entre humanos, animais e espíritos, no contexto dos povos maroon guianenses, nos permitem especular sobre outros modelos de predação e imagens de feralidade no dentro-fora da plantação. Onde a oposição caçador-presa nos sugere analogias associadas à violência da escravidão, devemos não apenas localizar, mas também destacar a ação dos espíritos na constituição de sociedades fundadas sobre princípios de solidariedade, em contínuos movimentos de fuga. A afinidade pactuada na fuga dos ancestrais cria uma socialidade feita de vivos e mortos, mais do que de humanos. A história dos primeiros tempos é encarnada no corpo e cravada no território de cada lugar, aldeia (konde) aberta, fundada por fugitivos (lowemen) e seus bandos com outros viventes – os porcos, os pássaros, as grandes serpentes. A partir de exemplos variados, mas tomando o caso dos Ampuku , espíritos que se transformam ou são protegidos por porcos do mato, este projeto investiga como a fuga - como relação social fundante da socialidade Ndyuka que se manifesta como experiência e ética legada pelos ancestrais (e o movimento de expansão dos Cottica Ndyuka) - compreende mais que um actante, o ancestral fugitivo, o assujeitado que escapa dos domínios, da violência e da domesticação coloniais, partilhando outras (sobre)naturezas, errante e furioso.
Rivke Jaffe
ANIMAPOLIS
Rivke lidera um projeto financiado por uma bolsa avançada do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC) para estudar o papel dos animais na formação das desigualdades urbanas. O projeto, intitulado ANIMAPOLIS, adota uma abordagem mais-do-que-humana da cidade, baseada em inovações teóricas e metodológicas na geografia urbana e na antropologia. Ele questiona como as interações entre os animais e os seres humanos e as infraestruturas, coproduzem a distribuição desigual de riscos e recursos entre os espaços urbanos e as populações. O projeto se concentra em dois domínios urbanos críticos, segurança e saúde pública, que muitas vezes são caracterizados por desigualdades gritantes, e toma o papel de animais-chave nesses domínios – cães e ratos, respectivamente – como um novo ponto de entrada analítico. Cães e ratos desempenham claramente um papel na segurança e na saúde pública, mas sabemos pouco sobre como medeiam as desigualdades relacionadas. Por meio de quais mecanismos os cães de segurança podem coproduzir práticas de discriminação racial, ou como a distribuição de ratos e de rodenticidas afeta os resultados de saúde pública? O projeto estuda esses mecanismos, com foco, em primeiro lugar, nas especificidades biológicas e imaginários culturais de cães e ratos e, em segundo lugar, nas dimensões espaciais, materiais e afetivas de suas interações com humanos e com infraestruturas. A equipe de pesquisa está desenvolvendo uma comparação qualitativa bidirecional, entre diferentes contextos urbanos e entre diferentes animais, por meio de etnografias multiespécies em Amsterdã e no Rio de Janeiro.
Victor Miguel Castillo de Macedo
Entre rotas e roças: caminhos de tígueres como contra-plantation
O projeto propõe a articulação da noção de tíguere, na República Dominicana, como uma espécie de portal para retornos, retomadas e recriações da vida de pessoas racializadas no território deste país. A partir da difusão desta expressão durante o que ficou conhecido como a Revolução de 1965 na capital do país, Santo Domingo, ela passa a operar como tropo de um certo tipo de insubmissão coletiva ante os desmandos da oligarquia e/ou dos poderes imperiais estadunidenses. A sua localização contemporânea recebeu outras camadas devido também à massiva imigração de dominicanos para os Estados Unidos – de modo que referir-se ao tíguere, pode ser uma forma de indicar a atuação misógina ou machista do homem dominicano que se utiliza da imagem do amante latino (Krohn-Hansen, 1996; Derby. 2009;Ramírez, 2018). No entanto, o interesse da pesquisa é seguir os outros vestígios da noção de tíguere, ou da sua disposição mais ampla, o tigueraje. Isso porque, tanto a partir de dados etnográficos coletados in loco durante a pesquisa de campo em 2019 quanto de uma bibliografia recente, etnograficamente orientada (Moreno, 1970; Gregory, 2007; Andrews, 2019; Castillo de Macedo, 2021), a ênfase nas multiplicidades tígueres (que atravessam não só as fronteiras de gênero e raça, mas também as de espécies) aponta para outros índices possíveis. Parte dos indícios que interessam ao projeto foi explorada na tese de doutorado “As multiplicidades dos Héroes de Abril: tempos, historicidades e modos de fazer ex-combatentes na Revolução de 1965 na República Dominicana”. Desta forma, o tigueraje, parece habitar ao mesmo tempo a história, na forma de roças (Wynter, 1971), e o cotidiano enquanto rota de fuga e escape para as opressões cotidianas. O objetivo geral é apresentar outra forma possível do que se concebe como processo de formação social da República Dominicana. Não somente como exemplo da tragédia colonial e capitalista, mas como germe de pequenas organizações que defenderam e garantiram à autodeterminação de populações racializadas. Para tanto, pretende-se publicar trabalhos de diferentes escopos, a saber: a versão em livro da tese acima citada; dois artigos científicos, além da apresentação de trabalhos em eventos nacionais e internacionais.
Wigbertson Julian Isenia
Colonialism, Queer Ecologies, and Multispecies Encounters at the Beach
Since colonial rule, beaches were framed as pure paradises populated by the so-called “exotic other” (Agard-Jones 2012, Kempadoo 1999, Nixon 2015). During the 1930s, tourism promoters sharpened this framing by centering on the beach, and new photographic technologies spread these scenes widely. Postcards, brochures, and travel magazines repeated those tropes, training viewers to expect emptiness, leisure, and compliant bodies, while erasing conflict, labor, and sexuality from the frame on shorelines. The project asks how such images, especially in the Caribbean, break down when nonhuman animals and queer intimacies appear. Using ecocriticism, queer theory, and animal studies, with Mortimer-Sandilands and Erickson’s (2010) idea of ‘queer ecologies,’ the project traces moments when colonial paradise myths meet nature’s queerness (Gosine 2021). Close readings of archival photographs and films from Curaçao and Jamaica track interspecies scenes with fish, iguanas, and donkeys. Each animal carries local meanings linked to aphrodisiacs, masculinity, and labor. Such encounters contest heteronormative claims about what counts as ‘natural’ and show sexuality and species as shifting categories. The study asks how queer multispecies intimacies on Caribbean beaches undo colonial paradise tropes and prompt reflection on extinction, ecological vulnerability, and representational politics (Garrard 2004, Luciano & Chen 2015).
Maria Eduarda Rodrigues da Silva
Entre mundos que se tocam: comunalidade, política das relações e coexistência afro-boliviana no Vale dos Yungas
A pesquisa propõe um trabalho de campo junto às comunidades afro-bolivianas do Vale dos Yungas, no Departamento de La Paz, no Estado Plurinacional da Bolívia. A região abriga populações historicamente constituídas a partir de marcas-trajetórias-rotas de escravização, deslocamento e enraizamento no território. O objetivo é compreender como práticas e narrativas de ancestralidade se articulam à experiência contemporânea de comunalidade e pertencimento. O foco recai sobre os modos como as relações entre pessoas, linhagens e entidades espirituais são tecidas e entretidas, de modo a produzir formas de vida coletiva em um contexto de gestão cotidiana marcado por reivindicações políticas, de pertencimento e de migração. Trata-se de um estudo etnográfico que tem como viés estabelecer uma primeira aproximação às comunidades locais, reconhecendo seus tempos, formas de hospitalidade e de socialidade.
Bruna Silva
Socialidades humanas e outras-que-humanas em um terreiro de Candomblé Jeje-Mahi no Rio de Janeiro
Este projeto propõe uma etnografia do terreiro Jeje-Mahi Húnkpàmè Kplé Núnyá Ayixósú, localizado em Magé - Rio de Janeiro, com foco nas formas de socialidade entre humanos e outros-que-humanos. O objetivo é compreender como as relações entre pessoas, voduns e ancestrais configuram enredos e contextos que dão sentido às trajetórias dos adeptos. Mais do que descrever práticas rituais, busco acompanhar tramas relacionais que constituem o terreiro como espaço de invenção, de continuidade e de reconfiguração de histórias. Ressalta-se a singularidade da linhagem Jeje fluminense e sua relevância etnográfica, considerando que grande parte da bibliografia concentra-se na Bahia e no Maranhão. A partir de observação participante e entrevistas, pretendo contribuir para os debates antropológicos sobre socialidades mais-que-humanas, a produção de pessoa e os modos de conceitualização no candomblé Jeje-Mahi.
Gabriel Andion
Práticas de cura winti no Suriname: cuidado, linhagem e espiritualidade
Este projeto toma como objeto de investigação uma manifestação mágico-espiritual de características semelhantes e peculiaridades próprias. Trata-se de práticas de cura winti (tradução do crioulo “vento”), presentes em diferentes regiões do Suriname. Resultado dos criativos processos de reterritorialização de escravizados africanos trazidos da costa Ocidental para as Américas, esse fenômeno socio-cultural e mágico-religioso existe em relações de complementaridade, compartimentalização e ecletismo (Vernooij, 2010, p. 324), com manifestações cristãs impostas por missionários ou disseminadas por movimentos cristãos proféticos crioulos em distintas partes do território do Suriname. Em face desse contexto, a pesquisa tem como objeto as práticas de cura winti no distrito do Para, no Suriname, como modo de compreender a articulação entre espiritualidade, religião e cuidado entre sujeitos da diáspora. Considerando as relações entre espiritualidade e ancestralidade (mais bem esmiuçadas no próximo tópico) próprias às práticas de cura winti, o projeto almeja relacionar esses domínios, recorrentemente considerados de modo separado, trazendo ao centro da descrição etnográfica os encontros não antevistos entre pessoas e seres mais-que-humanos, por meio da proliferação de suas histórias com os territórios sensíveis. A investigação tomará como base o trabalho de campo etnográfico a ser realizado no distrito do Para, no Suriname, ao longo de diferentes períodos entre 2027 e o primeiro semestre de 2028. A etnografia será construída a partir de estadas prolongadas em comunidades locais, com ênfase na observação participante do cotidiano, das práticas rituais, dos circuitos de cuidado e das formas de interação entre pessoas, entidades não humanas e o território.
Fugas, porcos e espíritos: derivas fugidias entre os Cottica Ndyuka
As relações entre humanos, animais e espíritos, no contexto dos povos maroon guianenses, nos permitem especular sobre outros modelos de predação e imagens de feralidade no dentro-fora da plantação. Onde a oposição caçador-presa nos sugere analogias associadas à violência da escravidão, devemos não apenas localizar, mas também destacar a ação dos espíritos na constituição de sociedades fundadas sobre princípios de solidariedade, em contínuos movimentos de fuga. A afinidade pactuada na fuga dos ancestrais cria uma socialidade feita de vivos e mortos, mais do que de humanos. A história dos primeiros tempos é encarnada no corpo e cravada no território de cada lugar, aldeia (konde) aberta, fundada por fugitivos (lowemen) e seus bandos com outros viventes – os porcos, os pássaros, as grandes serpentes. A partir de exemplos variados, mas tomando o caso dos Ampuku , espíritos que se transformam ou são protegidos por porcos do mato, este projeto investiga como a fuga - como relação social fundante da socialidade Ndyuka que se manifesta como experiência e ética legada pelos ancestrais (e o movimento de expansão dos Cottica Ndyuka) - compreende mais que um actante, o ancestral fugitivo, o assujeitado que escapa dos domínios, da violência e da domesticação coloniais, partilhando outras (sobre)naturezas, errante e furioso.
Rivke Jaffe
ANIMAPOLIS
Rivke lidera um projeto financiado por uma bolsa avançada do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC) para estudar o papel dos animais na formação das desigualdades urbanas. O projeto, intitulado ANIMAPOLIS, adota uma abordagem mais-do-que-humana da cidade, baseada em inovações teóricas e metodológicas na geografia urbana e na antropologia. Ele questiona como as interações entre os animais e os seres humanos e as infraestruturas, coproduzem a distribuição desigual de riscos e recursos entre os espaços urbanos e as populações. O projeto se concentra em dois domínios urbanos críticos, segurança e saúde pública, que muitas vezes são caracterizados por desigualdades gritantes, e toma o papel de animais-chave nesses domínios – cães e ratos, respectivamente – como um novo ponto de entrada analítico. Cães e ratos desempenham claramente um papel na segurança e na saúde pública, mas sabemos pouco sobre como medeiam as desigualdades relacionadas. Por meio de quais mecanismos os cães de segurança podem coproduzir práticas de discriminação racial, ou como a distribuição de ratos e de rodenticidas afeta os resultados de saúde pública? O projeto estuda esses mecanismos, com foco, em primeiro lugar, nas especificidades biológicas e imaginários culturais de cães e ratos e, em segundo lugar, nas dimensões espaciais, materiais e afetivas de suas interações com humanos e com infraestruturas. A equipe de pesquisa está desenvolvendo uma comparação qualitativa bidirecional, entre diferentes contextos urbanos e entre diferentes animais, por meio de etnografias multiespécies em Amsterdã e no Rio de Janeiro.
Victor Miguel Castillo de Macedo
Entre rotas e roças: caminhos de tígueres como contra-plantation
O projeto propõe a articulação da noção de tíguere, na República Dominicana, como uma espécie de portal para retornos, retomadas e recriações da vida de pessoas racializadas no território deste país. A partir da difusão desta expressão durante o que ficou conhecido como a Revolução de 1965 na capital do país, Santo Domingo, ela passa a operar como tropo de um certo tipo de insubmissão coletiva ante os desmandos da oligarquia e/ou dos poderes imperiais estadunidenses. A sua localização contemporânea recebeu outras camadas devido também à massiva imigração de dominicanos para os Estados Unidos – de modo que referir-se ao tíguere, pode ser uma forma de indicar a atuação misógina ou machista do homem dominicano que se utiliza da imagem do amante latino (Krohn-Hansen, 1996; Derby. 2009;Ramírez, 2018). No entanto, o interesse da pesquisa é seguir os outros vestígios da noção de tíguere, ou da sua disposição mais ampla, o tigueraje. Isso porque, tanto a partir de dados etnográficos coletados in loco durante a pesquisa de campo em 2019 quanto de uma bibliografia recente, etnograficamente orientada (Moreno, 1970; Gregory, 2007; Andrews, 2019; Castillo de Macedo, 2021), a ênfase nas multiplicidades tígueres (que atravessam não só as fronteiras de gênero e raça, mas também as de espécies) aponta para outros índices possíveis. Parte dos indícios que interessam ao projeto foi explorada na tese de doutorado “As multiplicidades dos Héroes de Abril: tempos, historicidades e modos de fazer ex-combatentes na Revolução de 1965 na República Dominicana”. Desta forma, o tigueraje, parece habitar ao mesmo tempo a história, na forma de roças (Wynter, 1971), e o cotidiano enquanto rota de fuga e escape para as opressões cotidianas. O objetivo geral é apresentar outra forma possível do que se concebe como processo de formação social da República Dominicana. Não somente como exemplo da tragédia colonial e capitalista, mas como germe de pequenas organizações que defenderam e garantiram à autodeterminação de populações racializadas. Para tanto, pretende-se publicar trabalhos de diferentes escopos, a saber: a versão em livro da tese acima citada; dois artigos científicos, além da apresentação de trabalhos em eventos nacionais e internacionais.
Wigbertson Julian Isenia
Colonialism, Queer Ecologies, and Multispecies Encounters at the Beach
Since colonial rule, beaches were framed as pure paradises populated by the so-called “exotic other” (Agard-Jones 2012, Kempadoo 1999, Nixon 2015). During the 1930s, tourism promoters sharpened this framing by centering on the beach, and new photographic technologies spread these scenes widely. Postcards, brochures, and travel magazines repeated those tropes, training viewers to expect emptiness, leisure, and compliant bodies, while erasing conflict, labor, and sexuality from the frame on shorelines. The project asks how such images, especially in the Caribbean, break down when nonhuman animals and queer intimacies appear. Using ecocriticism, queer theory, and animal studies, with Mortimer-Sandilands and Erickson’s (2010) idea of ‘queer ecologies,’ the project traces moments when colonial paradise myths meet nature’s queerness (Gosine 2021). Close readings of archival photographs and films from Curaçao and Jamaica track interspecies scenes with fish, iguanas, and donkeys. Each animal carries local meanings linked to aphrodisiacs, masculinity, and labor. Such encounters contest heteronormative claims about what counts as ‘natural’ and show sexuality and species as shifting categories. The study asks how queer multispecies intimacies on Caribbean beaches undo colonial paradise tropes and prompt reflection on extinction, ecological vulnerability, and representational politics (Garrard 2004, Luciano & Chen 2015).
Maria Eduarda Rodrigues da Silva
Entre mundos que se tocam: comunalidade, política das relações e coexistência afro-boliviana no Vale dos Yungas
A pesquisa propõe um trabalho de campo junto às comunidades afro-bolivianas do Vale dos Yungas, no Departamento de La Paz, no Estado Plurinacional da Bolívia. A região abriga populações historicamente constituídas a partir de marcas-trajetórias-rotas de escravização, deslocamento e enraizamento no território. O objetivo é compreender como práticas e narrativas de ancestralidade se articulam à experiência contemporânea de comunalidade e pertencimento. O foco recai sobre os modos como as relações entre pessoas, linhagens e entidades espirituais são tecidas e entretidas, de modo a produzir formas de vida coletiva em um contexto de gestão cotidiana marcado por reivindicações políticas, de pertencimento e de migração. Trata-se de um estudo etnográfico que tem como viés estabelecer uma primeira aproximação às comunidades locais, reconhecendo seus tempos, formas de hospitalidade e de socialidade.
Bruna Silva
Socialidades humanas e outras-que-humanas em um terreiro de Candomblé Jeje-Mahi no Rio de Janeiro
Este projeto propõe uma etnografia do terreiro Jeje-Mahi Húnkpàmè Kplé Núnyá Ayixósú, localizado em Magé - Rio de Janeiro, com foco nas formas de socialidade entre humanos e outros-que-humanos. O objetivo é compreender como as relações entre pessoas, voduns e ancestrais configuram enredos e contextos que dão sentido às trajetórias dos adeptos. Mais do que descrever práticas rituais, busco acompanhar tramas relacionais que constituem o terreiro como espaço de invenção, de continuidade e de reconfiguração de histórias. Ressalta-se a singularidade da linhagem Jeje fluminense e sua relevância etnográfica, considerando que grande parte da bibliografia concentra-se na Bahia e no Maranhão. A partir de observação participante e entrevistas, pretendo contribuir para os debates antropológicos sobre socialidades mais-que-humanas, a produção de pessoa e os modos de conceitualização no candomblé Jeje-Mahi.
Gabriel Andion
Práticas de cura winti no Suriname: cuidado, linhagem e espiritualidade
Este projeto toma como objeto de investigação uma manifestação mágico-espiritual de características semelhantes e peculiaridades próprias. Trata-se de práticas de cura winti (tradução do crioulo “vento”), presentes em diferentes regiões do Suriname. Resultado dos criativos processos de reterritorialização de escravizados africanos trazidos da costa Ocidental para as Américas, esse fenômeno socio-cultural e mágico-religioso existe em relações de complementaridade, compartimentalização e ecletismo (Vernooij, 2010, p. 324), com manifestações cristãs impostas por missionários ou disseminadas por movimentos cristãos proféticos crioulos em distintas partes do território do Suriname. Em face desse contexto, a pesquisa tem como objeto as práticas de cura winti no distrito do Para, no Suriname, como modo de compreender a articulação entre espiritualidade, religião e cuidado entre sujeitos da diáspora. Considerando as relações entre espiritualidade e ancestralidade (mais bem esmiuçadas no próximo tópico) próprias às práticas de cura winti, o projeto almeja relacionar esses domínios, recorrentemente considerados de modo separado, trazendo ao centro da descrição etnográfica os encontros não antevistos entre pessoas e seres mais-que-humanos, por meio da proliferação de suas histórias com os territórios sensíveis. A investigação tomará como base o trabalho de campo etnográfico a ser realizado no distrito do Para, no Suriname, ao longo de diferentes períodos entre 2027 e o primeiro semestre de 2028. A etnografia será construída a partir de estadas prolongadas em comunidades locais, com ênfase na observação participante do cotidiano, das práticas rituais, dos circuitos de cuidado e das formas de interação entre pessoas, entidades não humanas e o território.